No mês de
Maio do ano 2013, eu iniciei o hábito de rascunhar o meu dia-a-dia, tinha de o fazer
por causa de anotar as tarefas diárias sobre consultas e exames médicos devido
a ter contraído uma doença terrível de que vos vou falar mais à frente.
Certo dia,
ao verificar o que já tinha escrito, deparei-me com parte da minha recente
história em rascunhos ainda desorganizados e pensei, por que não continuar a
escrever, quem sabe se não vai ajudar outras pessoas na mesma situação! A ideia
tomou forma na minha cabeça e parti para textos mais elaborados, como seria bom
ajudar alguém, e daí surgiu a ideia de contar um pouco da minha vida,
principalmente a parte dolorosa causada pela doença que me apanhou desprevenida
e também como me superei ao viver com ela.
Obviamente
que não pretendo descrever a minha biografia mas sim contar a experiência com esta
doença que por vezes é muito difícil e dolorosa, uma história real que pretendo
partilhar por não me sentir derrotada, tudo farei para mudar o rumo das espectativas
se não perder a força interior que me assiste. Mas, se por acaso passar de
vencedora a vencida, o meu filho David concluirá o que resta e talvez faça
destes meus rascunhos um livro.
Se me
permitem, passo a apresentar-me. O meu nome é Celestina Maria da Silva, nasci
na então aldeia, hoje vila de Gloria do Ribatejo e pertenço ao Conselho de
Salvaterra de Magos no distrito de Santarém. Foi nesse lugar que cresci e
estudei, vivendo lá até aos 17 anos.
Entretanto,
os meus pais foram trabalhar para a Azambuja, em duas fábricas, o meu pai foi
para a Ford Lusitânia e a minha mãe para a Opel, as quais distam a pouco mais
de dois km de minha casa. Inicialmente, os meus pais vieram morar nos Casais de
Baixo, uma localidade situada a 8km da vila de Azambuja, ali alugaram uma casa,
mas eu e a minha irmã ficamos com a minha Avó por estarmos a estudar.
Aos 15 anos
completei o 8º ano e fui trabalhar no campo, mas aos 17 fui morar com com os
meus pais nos Casais de Baixo, onde me fixei e moro ainda hoje. Quando eu tirava
um curso de bordados, na vila de Azambuja, conheci o meu marido, ele morava na
mesma rua dos meus pais e muito perto da minha casa. Iniciámos o namoro e tinha
eu 18 anos e ele 20.
Quatro meses
depois ele foi cumprir o serviço militar durante 18 meses, e namorámos mais três
e depois casámos no ano 1982, tinha eu 21 anos e ele 23. Iniciei a minha vida
profissional, além do campo, numa empresa chamada Avi pronto, um matadouro de
frangos que fica a 2km de casa, e dois anos depois fiquei grávida do meu filho
mais velho, uma gravidez de risco, aos 5 meses estive internada na M.A.C e
corria o risco de um parto prematuro, estive lá 15 dias, depois vim para casa
para repouso absoluto até aos 9 meses, altura do nascimento em parto normal, o
meu primeiro filho, o Hélder, nasceu com 3,350 kg, correu tudo bem e nessa
altura o meu marido trabalhava na Sermague.
Passados 8
anos, eu tinha 29 anos e o meu pai teve um enfarte do miocárdio, fulminante, e
faleceu aos 49 anos de idade, uma perda muito difícil de superar, levei alguns
anos até me conformar com essa partida repentina sem retorno.
Decorridos
12 anos, o meu marido foi trabalhar, como camionista, na Rodo Cargo. Não havia
planos para mais filhos mas, sem esperarmos, fiquei grávida de novo quando
trabalhava na Avi-pronto, outra gravidez de risco porque eu tinha 36 anos
quando ele nasceu. Dessa gravidez tive um aborto espontâneo 3 meses antes, mas
a gravidez desenvolveu-se sem sobressaltos, todos os exames apontavam para um bebé
grande que nasceu às 41 semanas e 5 dias com 4, 220kg no hospital de Santarém,
um parto muito dificil por ser um bébé muito grande, mas nasceu sem problemas.
Nessa gravidez foi-me detetado um fibromioma que não prejudicou a gravidez, mas
estava em crescimento e, nos anos seguintes, fui fazendo exames de rotina para
ver o seu desenvolvimento.
Em 2006 o
meu marido ficou doente com febres altas, mas como é camionista e fazia o
internacional tinha chegado de uma viagem ao estrangeiro. Depois do Ano Novo surgiu
a gripe das aves, e o médico mandou-o para o hospital para fazer análises, onde
se descobriu uma infeção urinária e uma anemia acentuada, o que não era normal,
pelo que foi medicado para a infeção e fomos ao médico de família para ela ver
as análises. O meu marido estava renitente em fazer as análises, mas a médica
achou melhor pesquisar para ver de onde vinha aquela anemia, então olhei para a
médica e ela olhou para mim, tive um clique e disse á médica, passe-me as
análises que ele vai fazê-las, e fez mas não acusaram nada. Seguiu-se uma
endoscopia e não revelou nada, então partiu-se para novas análises que desta
vez acusavam valores tumorais. Enquanto esperávamos pelos resultados surgiu uma
oclusão intestinal e foi atendido na urgência, onde o médico pediu uma colonoscopia
de urgência.
O Serviço
Nacional de Saúde (SNS) tem acordos com algumas entidades do ramo para fazer
este tipo de exames, os quais estão sempre lotados, pelo que nos dias seguintes
foi uma luta para conseguirmos marcação, mesmo pesquisando no serviço particular
só havia para duas semanas com o custo de 270€. Com a influência de um familiar
consegui para a semana seguinte, mas ao fazer o exame o médico viu o que se
passava e só paguei 100€. Retiraram produto para analisar em biópsia que só
ficou pronta um mês depois.
Quando vi o
resultado do exame fiquei sem chão, parece que nos caiu uma bomba em cima, foi
muito difícil encarar a realidade e ver uma pessoa a sofrer ao nosso lado sem
podermos ajudar muito, mas fizemos o possível. O resultado da biópsia
apresentava um adenocarcinoma, na linguagem corrente é o cancro do colon retal,
isto levou a familia toda abaixo, os meus filhos, um com 17 anos e outro com 9,
sentiram-se muito-
O meu marido
fez radioterapia e quimioterapia ao mesmo tempo, depois foi operado e ficou com
uma ileostomia, a operação correu bem mas depois surgiram algumas complicações,
uma delas foi o intestino ter dobrado por dentro junto á ileostomia e ele
passou muito mal nesse fim-de-semana, inchou todo, a sorte dele foi um
enfermeiro experiente que pôs uma sonda e retirou tudo o que estava no estômago,
com isto ele melhorou mas teve de ser operado na semana seguinte. Depois
começou com febre alta e os médicos não estavam a conseguir saber de onde
vinha, as análises acusavam uma infeção mas não sabiam a origem, até que esteve
2 dias sem febre e mandaram-no para casa, mas nesse fim-de-semana a febre
voltou e debilitou-o muito, pelo que o levei de novo para o hospital,
precisamente no dia dos anos do meu filho mais novo, e lá ficou internado.
Apesar de
tudo, não foi muito grave, diagnosticaram um abcesso escondido na costura da
cirurgia que lhe provocava a febre, o qual foi tratado, desde esse momento começou
a melhorar e passado uma semana veio para casa ficando com a ileostomia.
Um ano depois, em 2007, voltou ao hospital
porque, numa colonoscopia, foi-lhe diagnosticado um pólipo no intestino que estava
a transformar-se para meio maligno e, precisamente, 3 dias antes de fazer este
exame faleceu a sua mãe (minha sogra) que eu considerava a minha segunda mãe,
sempre minha amiga, ajudou-me muito, foi um grande apoio nesta fase difícil.
Claro que mãe há só uma, mas eu digo a minha segunda mãe porque, a minha verdadeira
mãe estava longe, na sua casa em Gloria do Ribatejo.
A morte da
minha sogra foi uma perda muito grande para nós, para mim já era a segunda
perda, mas foi tão difícil e dolorosa como quando perdi o meu pai. O meu marido
ficou com a ileostomia durante 2 anos, depois fez quimioterapia durante 6 meses,
todas as semanas fazia um tratamento. Findo esse tempo foi de novo operado para
retirar a ileostomia (saco) e fazer a ligação do intestino, mas ficou muito
condicionado com a alimentação, há muita coisa que não pode comer e, por isso,
tem uma alimentação diferente, ficou a ser vigiado de 6 em 6 meses e, depois, a
consulta passou a ser uma vez por ano. Neste momento, estamos em 2015, já
passaram 7 anos e está a trabalhar, mas continua vigiado, todos os anos faz análises
e t.a.c.
Felizmente,
foi um de cada vez. Em 2008 comecei a ter muitas hemorragias, o que me levou a
uma anemia que não se conseguia controlar através da medicação em 4 anos.
Entretanto, a minha médica de família marcou-me consulta no hospital de Vila
Franca de Xira para ser vista em ginecologia, mas na triagem da consulta
enviaram-me à consulta de planeamento familiar e aí foi-me dada mais medicação
que não sortiu efeito. Então, a médica decidiu que a única solução seria operar
com urgência, a minha hemoglobina não subia além de 8, pelo que, depois dos
exames pré operatórios, fui internada em 15-6-2012 e operada no dia 16-06-2012.
No dia que
me retirarem o fibromioma tiveram que retirar os ovários e o útero, entrei na menopausa
aos 51 anos. A operação correu bem, mas a hemoglobina não subia e fiquei
internada uma semana, depois vim recuperar muito lentamente para casa. A médica
foi de férias todo mês de julho, a consulta pós-operatória só aconteceu no mês
de agosto, precisamente no dia 3-08 2012. Depois da operação fiquei com muitas
dores e tive que recorrer á urgência 2 vezes, onde me fizeram exames e nada que
justificasse as dores que tinha encontraram, mas elas permaneceram durante 4 meses
e, aos dois meses, eu mal conseguia andar, foi então que conheci uma pessoa que
tratava doentes através do reiki, a energia do universo, energia espiritual,
então pensei, porque não tentar! E fui experimentar. Passadas duas semanas já
andava muito melhor e continuei a frequentar esse lugar, foi aqui que se deram
algumas modificações em mim, sentia-me mais forte, com mais força interior, mas
continuava com dores, isto já no mês de outubro, as dores eram do lado esquerdo
da barriga e na virilha, a médica achava estranho eu queixar-me com dores por
tanto tempo. Depois de muita insistência minha por ver pessoas que tinham feito
a mesma operação e andavam bem disse à doutora, eu não me queixaria de dores se
as não sentisse, então ela mandou fazer uma eco abdominal superior e marcou
consulta para o início do ano.
Quando fui
fazer a marcação só havia vaga para fevereiro e no fim do mês marquei a
consulta, a eco tinha marcação para 12-12-2012, então marquei e fui fazer nesse
dia no hospital de V.F.Xira. No decorrer do exame eu perguntei se estava a correr
tudo bem ou havia algum problema, é um hábito meu fazer esta pergunta quando
faço um exame, o médico respondeu-me que estava tudo bem, só tem alguns pólipos
e pedra na vesicula, a senhora vai a consulta quando? Respondi que só tinha
consulta em fevereiro e o médico não me deu o resultado do exame, ficou em
computador para a médica ver na consulta.
Entretanto,
vim para casa tranquila, pois sabia que tinha pedra na vesicula através de uma
eco que tinha feito a toda zona abdominal há uns anos atrás, a pedido da médica
de família, a minha vesicula é muito preguiçosa e a maior parte das vezes não
fazia a digestão, a minha médica de família já me tinha preparado para que se
um dia eu tivesse uma dor forte me preparasse para ser operada. Precisamente 2 semanas
depois de fazer a eco, no dia 17-12-2012, comecei a sentir dores, ainda leves,
no lado esquerdo e na zona abdominal. Sabendo eu que a vesicula era do lado
direito, comecei a pensar que a dor que sentia era da vesicula e, então, fui
aguentando para ver a evolução que aumentou e passou de forte a muito forte,
evoluindo para as costas, tornando-se insuportável, o que me fez ir às urgência
do hospital de V.F.Xira.
Depois de
receber a medicação para as dores via intravenosa recuperei e fui fazer
análises, informando o médico que tinha feito uma eco no dia 12-12-2012 que estava
no computador. O médico procurou mas não encontrou e, como eu já estava sem
comer há mais de 6 horas, e para se fazer este tipo de ecografia temos de estar
esse tempo sem comer, o médico mandou fazer outra de imediato.
Entretanto,
a médica já tinha indicação que as análises do fígado vinham todas alteradas,
acusavam litíase, a médica estava a demorar a fazer o exame e eu apercebi-me
que ela procurava alguma coisa, então perguntei-lhe, doutora está tudo bem? Calmamente,
ela olhou para mim e disse: a senhora tem que fazer um t.a.c. de urgência. Estas
palavras ecoaram-me no ouvido, eu já as tinha ouvido essas palavras, ditas da
mesma maneira há 7 anos, aquando da doença do meu marido, foi então que perguntei,
fazer um t.a.c. porquê doutor! O que se passa? A doutora disse-me, a senhora
tem uma infeção no fígado e só o t.a.c. nos pode dizer o que realmente se passa,
mas esse t.a.c. tem que ser planeado para fazer contraste, então aqui soaram as
minhas campainhas de alarme!...