segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

No mês de Maio do ano 2013, eu iniciei o hábito de rascunhar o meu dia-a-dia, tinha de o fazer por causa de anotar as tarefas diárias sobre consultas e exames médicos devido a ter contraído uma doença terrível de que vos vou falar mais à frente.
Certo dia, ao verificar o que já tinha escrito, deparei-me com parte da minha recente história em rascunhos ainda desorganizados e pensei, por que não continuar a escrever, quem sabe se não vai ajudar outras pessoas na mesma situação! A ideia tomou forma na minha cabeça e parti para textos mais elaborados, como seria bom ajudar alguém, e daí surgiu a ideia de contar um pouco da minha vida, principalmente a parte dolorosa causada pela doença que me apanhou desprevenida e também como me superei ao viver com ela.
Obviamente que não pretendo descrever a minha biografia mas sim contar a experiência com esta doença que por vezes é muito difícil e dolorosa, uma história real que pretendo partilhar por não me sentir derrotada, tudo farei para mudar o rumo das espectativas se não perder a força interior que me assiste. Mas, se por acaso passar de vencedora a vencida, o meu filho David concluirá o que resta e talvez faça destes meus rascunhos um livro.
Se me permitem, passo a apresentar-me. O meu nome é Celestina Maria da Silva, nasci na então aldeia, hoje vila de Gloria do Ribatejo e pertenço ao Conselho de Salvaterra de Magos no distrito de Santarém. Foi nesse lugar que cresci e estudei, vivendo lá até aos 17 anos.
Entretanto, os meus pais foram trabalhar para a Azambuja, em duas fábricas, o meu pai foi para a Ford Lusitânia e a minha mãe para a Opel, as quais distam a pouco mais de dois km de minha casa. Inicialmente, os meus pais vieram morar nos Casais de Baixo, uma localidade situada a 8km da vila de Azambuja, ali alugaram uma casa, mas eu e a minha irmã ficamos com a minha Avó por estarmos a estudar.
Aos 15 anos completei o 8º ano e fui trabalhar no campo, mas aos 17 fui morar com com os meus pais nos Casais de Baixo, onde me fixei e moro ainda hoje. Quando eu tirava um curso de bordados, na vila de Azambuja, conheci o meu marido, ele morava na mesma rua dos meus pais e muito perto da minha casa. Iniciámos o namoro e tinha eu 18 anos e ele 20.
Quatro meses depois ele foi cumprir o serviço militar durante 18 meses, e namorámos mais três e depois casámos no ano 1982, tinha eu 21 anos e ele 23. Iniciei a minha vida profissional, além do campo, numa empresa chamada Avi pronto, um matadouro de frangos que fica a 2km de casa, e dois anos depois fiquei grávida do meu filho mais velho, uma gravidez de risco, aos 5 meses estive internada na M.A.C e corria o risco de um parto prematuro, estive lá 15 dias, depois vim para casa para repouso absoluto até aos 9 meses, altura do nascimento em parto normal, o meu primeiro filho, o Hélder, nasceu com 3,350 kg, correu tudo bem e nessa altura o meu marido trabalhava na Sermague.
Passados 8 anos, eu tinha 29 anos e o meu pai teve um enfarte do miocárdio, fulminante, e faleceu aos 49 anos de idade, uma perda muito difícil de superar, levei alguns anos até me conformar com essa partida repentina sem retorno.
Decorridos 12 anos, o meu marido foi trabalhar, como camionista, na Rodo Cargo. Não havia planos para mais filhos mas, sem esperarmos, fiquei grávida de novo quando trabalhava na Avi-pronto, outra gravidez de risco porque eu tinha 36 anos quando ele nasceu. Dessa gravidez tive um aborto espontâneo 3 meses antes, mas a gravidez desenvolveu-se sem sobressaltos, todos os exames apontavam para um bebé grande que nasceu às 41 semanas e 5 dias com 4, 220kg no hospital de Santarém, um parto muito dificil por ser um bébé muito grande, mas nasceu sem problemas. Nessa gravidez foi-me detetado um fibromioma que não prejudicou a gravidez, mas estava em crescimento e, nos anos seguintes, fui fazendo exames de rotina para ver o seu desenvolvimento.
Em 2006 o meu marido ficou doente com febres altas, mas como é camionista e fazia o internacional tinha chegado de uma viagem ao estrangeiro. Depois do Ano Novo surgiu a gripe das aves, e o médico mandou-o para o hospital para fazer análises, onde se descobriu uma infeção urinária e uma anemia acentuada, o que não era normal, pelo que foi medicado para a infeção e fomos ao médico de família para ela ver as análises. O meu marido estava renitente em fazer as análises, mas a médica achou melhor pesquisar para ver de onde vinha aquela anemia, então olhei para a médica e ela olhou para mim, tive um clique e disse á médica, passe-me as análises que ele vai fazê-las, e fez mas não acusaram nada. Seguiu-se uma endoscopia e não revelou nada, então partiu-se para novas análises que desta vez acusavam valores tumorais. Enquanto esperávamos pelos resultados surgiu uma oclusão intestinal e foi atendido na urgência, onde o médico pediu uma colonoscopia de urgência.
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem acordos com algumas entidades do ramo para fazer este tipo de exames, os quais estão sempre lotados, pelo que nos dias seguintes foi uma luta para conseguirmos marcação, mesmo pesquisando no serviço particular só havia para duas semanas com o custo de 270€. Com a influência de um familiar consegui para a semana seguinte, mas ao fazer o exame o médico viu o que se passava e só paguei 100€. Retiraram produto para analisar em biópsia que só ficou pronta um mês depois.
Quando vi o resultado do exame fiquei sem chão, parece que nos caiu uma bomba em cima, foi muito difícil encarar a realidade e ver uma pessoa a sofrer ao nosso lado sem podermos ajudar muito, mas fizemos o possível. O resultado da biópsia apresentava um adenocarcinoma, na linguagem corrente é o cancro do colon retal, isto levou a familia toda abaixo, os meus filhos, um com 17 anos e outro com 9, sentiram-se muito-
O meu marido fez radioterapia e quimioterapia ao mesmo tempo, depois foi operado e ficou com uma ileostomia, a operação correu bem mas depois surgiram algumas complicações, uma delas foi o intestino ter dobrado por dentro junto á ileostomia e ele passou muito mal nesse fim-de-semana, inchou todo, a sorte dele foi um enfermeiro experiente que pôs uma sonda e retirou tudo o que estava no estômago, com isto ele melhorou mas teve de ser operado na semana seguinte. Depois começou com febre alta e os médicos não estavam a conseguir saber de onde vinha, as análises acusavam uma infeção mas não sabiam a origem, até que esteve 2 dias sem febre e mandaram-no para casa, mas nesse fim-de-semana a febre voltou e debilitou-o muito, pelo que o levei de novo para o hospital, precisamente no dia dos anos do meu filho mais novo, e lá ficou internado.
Apesar de tudo, não foi muito grave, diagnosticaram um abcesso escondido na costura da cirurgia que lhe provocava a febre, o qual foi tratado, desde esse momento começou a melhorar e passado uma semana veio para casa ficando com a ileostomia.
 Um ano depois, em 2007, voltou ao hospital porque, numa colonoscopia, foi-lhe diagnosticado um pólipo no intestino que estava a transformar-se para meio maligno e, precisamente, 3 dias antes de fazer este exame faleceu a sua mãe (minha sogra) que eu considerava a minha segunda mãe, sempre minha amiga, ajudou-me muito, foi um grande apoio nesta fase difícil. Claro que mãe há só uma, mas eu digo a minha segunda mãe porque, a minha verdadeira mãe estava longe, na sua casa em Gloria do Ribatejo.
A morte da minha sogra foi uma perda muito grande para nós, para mim já era a segunda perda, mas foi tão difícil e dolorosa como quando perdi o meu pai. O meu marido ficou com a ileostomia durante 2 anos, depois fez quimioterapia durante 6 meses, todas as semanas fazia um tratamento. Findo esse tempo foi de novo operado para retirar a ileostomia (saco) e fazer a ligação do intestino, mas ficou muito condicionado com a alimentação, há muita coisa que não pode comer e, por isso, tem uma alimentação diferente, ficou a ser vigiado de 6 em 6 meses e, depois, a consulta passou a ser uma vez por ano. Neste momento, estamos em 2015, já passaram 7 anos e está a trabalhar, mas continua vigiado, todos os anos faz análises e t.a.c.
Felizmente, foi um de cada vez. Em 2008 comecei a ter muitas hemorragias, o que me levou a uma anemia que não se conseguia controlar através da medicação em 4 anos. Entretanto, a minha médica de família marcou-me consulta no hospital de Vila Franca de Xira para ser vista em ginecologia, mas na triagem da consulta enviaram-me à consulta de planeamento familiar e aí foi-me dada mais medicação que não sortiu efeito. Então, a médica decidiu que a única solução seria operar com urgência, a minha hemoglobina não subia além de 8, pelo que, depois dos exames pré operatórios, fui internada em 15-6-2012 e operada no dia 16-06-2012.  
No dia que me retirarem o fibromioma tiveram que retirar os ovários e o útero, entrei na menopausa aos 51 anos. A operação correu bem, mas a hemoglobina não subia e fiquei internada uma semana, depois vim recuperar muito lentamente para casa. A médica foi de férias todo mês de julho, a consulta pós-operatória só aconteceu no mês de agosto, precisamente no dia 3-08 2012. Depois da operação fiquei com muitas dores e tive que recorrer á urgência 2 vezes, onde me fizeram exames e nada que justificasse as dores que tinha encontraram, mas elas permaneceram durante 4 meses e, aos dois meses, eu mal conseguia andar, foi então que conheci uma pessoa que tratava doentes através do reiki, a energia do universo, energia espiritual, então pensei, porque não tentar! E fui experimentar. Passadas duas semanas já andava muito melhor e continuei a frequentar esse lugar, foi aqui que se deram algumas modificações em mim, sentia-me mais forte, com mais força interior, mas continuava com dores, isto já no mês de outubro, as dores eram do lado esquerdo da barriga e na virilha, a médica achava estranho eu queixar-me com dores por tanto tempo. Depois de muita insistência minha por ver pessoas que tinham feito a mesma operação e andavam bem disse à doutora, eu não me queixaria de dores se as não sentisse, então ela mandou fazer uma eco abdominal superior e marcou consulta para o início do ano.
Quando fui fazer a marcação só havia vaga para fevereiro e no fim do mês marquei a consulta, a eco tinha marcação para 12-12-2012, então marquei e fui fazer nesse dia no hospital de V.F.Xira. No decorrer do exame eu perguntei se estava a correr tudo bem ou havia algum problema, é um hábito meu fazer esta pergunta quando faço um exame, o médico respondeu-me que estava tudo bem, só tem alguns pólipos e pedra na vesicula, a senhora vai a consulta quando? Respondi que só tinha consulta em fevereiro e o médico não me deu o resultado do exame, ficou em computador para a médica ver na consulta.
Entretanto, vim para casa tranquila, pois sabia que tinha pedra na vesicula através de uma eco que tinha feito a toda zona abdominal há uns anos atrás, a pedido da médica de família, a minha vesicula é muito preguiçosa e a maior parte das vezes não fazia a digestão, a minha médica de família já me tinha preparado para que se um dia eu tivesse uma dor forte me preparasse para ser operada. Precisamente 2 semanas depois de fazer a eco, no dia 17-12-2012, comecei a sentir dores, ainda leves, no lado esquerdo e na zona abdominal. Sabendo eu que a vesicula era do lado direito, comecei a pensar que a dor que sentia era da vesicula e, então, fui aguentando para ver a evolução que aumentou e passou de forte a muito forte, evoluindo para as costas, tornando-se insuportável, o que me fez ir às urgência do hospital de V.F.Xira.
Depois de receber a medicação para as dores via intravenosa recuperei e fui fazer análises, informando o médico que tinha feito uma eco no dia 12-12-2012 que estava no computador. O médico procurou mas não encontrou e, como eu já estava sem comer há mais de 6 horas, e para se fazer este tipo de ecografia temos de estar esse tempo sem comer, o médico mandou fazer outra de imediato.

Entretanto, a médica já tinha indicação que as análises do fígado vinham todas alteradas, acusavam litíase, a médica estava a demorar a fazer o exame e eu apercebi-me que ela procurava alguma coisa, então perguntei-lhe, doutora está tudo bem? Calmamente, ela olhou para mim e disse: a senhora tem que fazer um t.a.c. de urgência. Estas palavras ecoaram-me no ouvido, eu já as tinha ouvido essas palavras, ditas da mesma maneira há 7 anos, aquando da doença do meu marido, foi então que perguntei, fazer um t.a.c. porquê doutor! O que se passa? A doutora disse-me, a senhora tem uma infeção no fígado e só o t.a.c. nos pode dizer o que realmente se passa, mas esse t.a.c. tem que ser planeado para fazer contraste, então aqui soaram as minhas campainhas de alarme!...